14/12/2017

Utopias para um ano bom | Luiz Américo Camargo

Destemperados

Foto: Omar Freitas/Agência RBS

Eu sei, eu sei. Uma coisa são os negócios: é preciso gerar riquezas, empregos, fazer a roda girar. Outra coisa é um certo idealismo – mais precisamente aquele que postula que sempre é possível trabalhar apenas com ideias, produtos e serviços nos quais acreditamos. Juntando as duas pontas, declaro que sempre tive admiração por empreendedores e cozinheiros que só vendem pratos que gostam de comer. Por importadores que gostam de todos os vinhos que trazem do Exterior. Por profissionais que não servem aos outros nada que não serviriam para suas próprias famílias.

Não vou brigar com o óbvio. Existem fatias específicas de mercado, oportunidades, há custos, há segmentos em que o possível fala mais alto do que o desejável. Se tem gente para comprar, é preciso detectar o nicho e vender. Mas não seria um critério dos mais saudáveis que os profissionais só pusessem nas mesas e gôndolas produtos que eles mesmo levariam para suas casas? A realidade, entretanto, está mais para a linha “eu nem gosto disso, acho ruim... mas, se o povo paga, por que não?”.

Como “utopia gastronômica” para o ano que chega, portanto, gostaria de ver os termos “comida boa” e “comida que vende bem” expressando possibilidades cada vez mais coincidentes. Você, que é cozinheiro – não importa se de um trivial restaurante a quilo ou de uma casa de luxo –, pense bem: daria para seus filhos os pratos que serve ao público? Você, que produz alimentos, assina embaixo pela qualidade nutricional e gustativa das suas preparações? Vamos caprichar no sabor, mas rever gorduras, açúcares, sódio, conservantes? Vamos botar na mesa da freguesia itens mais confiáveis? Evolução do mercado, formação do gosto, elevação da qualidade... são coisas que acontecem em cadeia, nunca solitariamente. Vêm e vão do consumidor ao fabricante, passando por formadores de opinião, professores, profissionais de áreas correlatas. Contudo, alguém precisa começar. Então, vamos ser mais exigentes? Vamos comer melhor no ano que vem?

*Crítico gastronômico e autor do livro Pão Nosso
lamerico.camargo@gmail.com