15/06/2017

Você quer mesmo ler este texto? | Luiz Américo Camargo

Destemperados

*Texto por Luiz Américo Camargo, crítico gastronômico e autor do livro Pão Nosso

A cena aconteceu num recente almoço de domingo. Cheguei ao restaurante com minha mulher e, ao nos aproximarmos da hostess, para saber se havia mesa disponível, ela nos avisou: “Olha, tem meia hora de espera”. Fez isso como quem informa uma desgraça, na entonação de voz e na expressão facial (e corporal).

Respondemos que aguardaríamos, não era tanto tempo. Arrumamos dois assentos livres, na área de espera, e perguntamos se daria para pedir algum petisco, enquanto a mesa não aparecia. “Olha, como o restaurante está cheio, está demorando um pouquinho”, a hostess respondeu, com a mesma entonação trágica. Não pedimos nada, então. E nossos lugares nem tardaram a surgir. O almoço, por sua vez, transcorreu bem.

Porém, do mesmo modo que desistimos de pedir alguma porção durante a espera, poderíamos ter desistido de ficar. A funcionária, nos gestos e na fisionomia, praticamente nos induzia a isso. Na intenção de ser realista, de não iludir o cliente, de se mostrar solidária, ela praticamente espantava a freguesia (eu fiquei observando, durante a chegada de outros visitantes: a atitude era a mesma). Concretamente falando, no mínimo, ela desanimou que gastássemos um pouco mais. Não é algo arriscado de se fazer, num momento em que tantos reclamam do movimento abaixo da média?

Espera é sempre aquela situação desconfortável. A chance de uma perspectiva de diversão se transformar num estresse é considerável. Há endereços que não trabalham com reservas e, neste caso, aguardar faz parte do jogo. Contudo, existe a fome, o cansanço, existem os (maus) humores, existem os comensais que não sabem lidar educadamente com a situação. Assim sendo, tanto melhor se o restaurante estiver preparado para tornar esse tempo o mais agradável possível. O que inclui informar direito sobre a fila, providenciar algum conforto e, principalmente, demonstrar que todos são bem-vindos.

E, num português claro, se não vender para o público, se não encher o salão, a casa fecha.

Afinal, imaginem se eu começasse esta coluna assim: “Xi, você vai mesmo ler este texto”?

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