11/01/2018

Se é para ser mínimo, pense no máximo | Luiz Américo Camargo

Destemperados

Foto: Reprodução

Os programas da TV sobre acumuladores de objetos e sobre “desapego” a bens materiais são cada vez mais numerosos. Há um documentário americano na Netflix, chamado Minimalism, que tem feito relativo sucesso pregando a valorização das coisas realmente importantes. Em março, em São Paulo, o evento de palestras Food Forum vai ter como tema adivinhem o quê? Ele, o minimalismo (sou um um dos participantes e vou falar de pão). Por fim: nunca ouvi tantos citando a conhecida frase “menos é mais”.

Estamos caminhando para uma fase de busca pelo básico, pela essência? Tudo indica que sim. Mas, como sempre costumo fazer nesta coluna, acho que é preciso contextualizar as propostas (agora, estou me referindo à comida). Imagino que, cada vez mais, o público esteja se cansando de pratos com ingredientes em demasia, informações em excesso, que até confundem nossas papilas. E isso pode convir tanto para um prato de alta cozinha, cheio de bases, molhos, temperos, como para um sanduba gigante de 10 camadas.

A minha visão do minimalismo, portanto, é: privilegiar o que é bom. Você quer fazer um churrasco? Compensa mais ter um dúzia de diferentes carnes, ou se ater a uma variedade bem menor, porém de produtos excelentes? Minimalismo, por outro lado, também não é sinônimo de não dar bola, ser negligente, topar qualquer coisa. É buscar a essência, a alma, é comunicar muito usando pouco. É se concentrar no melhor. Aí cabe até a analogia com as roupas. Poucas e bem feitas peças, de tecido nobre, bem desenhadas, valem mais – creio eu, ao menos – do que um armário cheio de coisas baratas e de pouca durabilidade. E, para não dizer que não falei de pão, vamos comparar. São só quatro ingredientes, farinha, água, fermento e sal. Contudo, quanto melhor a matéria-prima, mais gostoso e nutritivo ele será.

*Crítico gastronômico e autor do livro Pão Nosso
lamerico.camargo@gmail.com