16/06/2017

Propriedade do interior de Canela valoriza a produção local por meio da gastronomia

Anahís Vargas

Monã, que segundo os tupi-guaranis é o criador do mundo, do céu e dos seres vivos, é o nome escolhido para uma área de 132 hectares localizada no interior do município de Canela, na Serra Gaúcha. Comandada pelo empresário Daniel Castelli, a propriedade agrícola oferece vivências em meio a uma natureza exuberante. A ideia por lá é valorizar a hospitalidade, o meio ambiente e a produção local.

Aos 10 anos, Daniel se mudou com a família para Canela, quando seu pai inaugurou a Castelli Escola de Ensino Superior de Hotelaria. Por isso, desde pequeno, já convivia com a natureza, principalmente pelas atividades do grupo de escoteiros do qual participava. 

– Em um passeio dos escoteiros, nós descemos o morro e fomos para a área onde hoje é a Monã. Desde então, tomei gosto pela natureza, por estar no mato, pela vida ao ar livre – lembra Castelli. 

Foi em 2005 que a família adquiriu a área com a intenção de criar um novo braço da escola para o ensino da hospitalidade. 

– Tínhamos duas opções: uma era manter o espaço como área de preservação, e a outra, transformar em uma propriedade agrícola, mas com foco em um alimento bom, rico e justo, que é em que se baseia o movimento do Slow Food, uma inspiração para mim – conta.

Após ser recuperada e revitalizada, a Monã passou a trabalhar com uma filosofia agroecológica, buscando entender o ecossistema como um todo e trazendo de volta a harmonia do local. São diversas as atividades promovidas no lugar, que mantém uma infraestrutura para receber os visitantes. No bolicho, por exemplo, são comercializados produtos da casa e da rede de pequenos produtores e parceiros locais e regionais. Já na hospedaria, uma casa feita em madeira, é possível alojar os visitantes em sete quartos para até quatro pessoas, que podem aproveitar uma cozinha com fogão à lenha e refeitório integrados.

– Trouxemos de volta os pássaros, os animais, as lavouras, as matas. É muito intensa a vida da natureza aqui. Vamos agindo com a intenção de transformar esse espaço em um lugar harmônico, bonito e com energia positiva – explica Castelli. – A Monã é um alicerce para desenvolver infinitas atividades, desde encontro de pessoas, até questão da gastronomia, que é muito lógica, pois nós estamos na produção. Meu objetivo é unir a cadeia da terra ao prato, passando todo o conceito da hospitalidade que foi o trabalho da família ao longo desse tempo todo, o verdadeiro cuidado em receber – comenta.

SLOW FOOD, JAZZ E NATUREZA
Daniel sempre foi um apaixonado pelo o conceito do Slow Food, e por isso o levou para a Monã. O principal elemento utilizado é o fogo, além dos alimentos frescos da região e dos produtores parceiros da Rede Ecovida de Agroecologia – associação de produtores locais que conta com cerca de quatro mil famílias. Por lá, a biodiversidade e a relação do alimento com a terra são importantes fatores para uma experiência gastronômica de qualidade.

– Ficamos por um bom período ligados apenas aos cursos de educação ambiental. De um tempo para cá, estamos desenvolvendo a ideia de abrir ao público em geral, mediante reserva, para que as pessoas possam conhecer o projeto, as estruturas e, claro, saborear o bom cordeiro que fazemos aqui, as hortaliças que colhemos e a polenta de milho que produzimos.

Aos finais de semana, Daniel e sua companheira, Aline, recebem as pessoas para um almoço especial. Eles mesmos preparam a comida e organizam a casa. Em algumas ocasiões, a trilha sonora fica por conta da banda de jazz dos amigos de Castelli. Tudo é muito familiar, intimista e com um clima que só a Monã sabe oferecer.

– Tem que vir e sentir, é difícil descrever esse lugar – reflete Castelli. – Estamos agora com esse conceito de anfitrião do espaço, tentando vincular essa forma de convívio, do pessoal vir e aproveitá-lo, compartilhar, manter uma troca de experiências. Queremos agregar um pouquinho para as pessoas, por isso, também, temos que buscar um público que venha com uma ideia de preservação e cuidado.

Por outro lado, Daniel aponta a importância de conhecermos a fonte dos nossos alimentos, uma vez que temos a ideia de que tudo vem embalado e comprado no supermercado. 

– Na prática, as pessoas não conhecem os produtores locais. Aqui, queremos fazer o contrário: conhecer os ingredientes da estação e utilizá-los em nossas refeições. As pessoas precisam aprender a desacelerar, aprender e se conectar com a natureza, a perceber as estações do ano.  Além do convívio com as pessoas e com o meio ambiente. Precisamos entender de onde vêm as coisas, se divertir e aproveitar – completa.

A MONÃ
A Monã – Centro de Estudos Ambientais é, na verdade, um complexo que conta com diferentes espaços. Confira alguns deles:

– Hospedaria: uma grande casa acolhedora feita em madeira, com fogão à lenha e espaço compartilhado. Tem espaço para cerca de 27 pessoas divididas em vários quartos.

– Bolicho: área que conta com a churrasqueira em forma de parrilla e com espaço para venda e exposição de produtos locais, alguns deles feitos lá mesmo, com as tábuas em madeira produzidas artesanalmente por Castelli.

– Marcenaria: é lá que são produzidas as tábuas de madeira e outros itens feitos de maneira artesanal com o material abundante na região. As tábuas têm um design diferenciado e são uma ótima dica para ter em casa.

– Pomar: diferentes tipos de árvores frutíferas compõem essa área.

– Templo Verde: espaço cheio de árvores que também funciona para eventos ao ar livre.

– Aprisco: local onde ficam as ovelhas, quando não estão soltas no pasto.

– Galinheiro: por lá, as galinhas são criadas soltas, alimentadas com milho.

// Leia aqui nossa experiência no almoço da Monã