07/09/2017

Modas e Modinhas | Luiz Américo Camargo

Destemperados

Não, o tema da coluna não é a música caipira de raiz. As modas em questão são as ondas, as tendências, as bossas que vêm e vão no mercado. Por que algumas conquistam mais público e até se tornam duradouras? Por que outras não sobrevivem a um verão e se desfazem na poeira da produção pop?

Creio não ser capaz de responder em termos absolutos, mas arrisco alguns palpites. Em primeiro lugar, não sou daqueles que demonizam os modismos. Não considero que toda e qualquer novidade, por mais ligeira que pareça, configure uma ameaça ao que é tradicional ou genuíno. Inclusive porque isso acontece em todos os lugares, não é exclusividade daquele país, daquela cidade.

Modas podem trazer alguns sopros de ar em certos contextos. Podem revelar vontades que o público ainda não havia manifestado. Aí você pergunta: pão de fermentação natural, produtos artesanais, curados... são apenas moda? Não acho. Porque envolvem hábitos, qualidade nutricional, pesquisa de sabor. Vieram para ficar. E pipoca gourmet, e paleta mexicana? Aí, eu nem diria que são moda, são modinha. Para chamar a atenção em um primeiro momento e desaparecer aos poucos, logo em seguida.

E ceviche, é moda? Também creio que não. É um prato que expressa uma história e abarca uma série de virtudes gustativas (se bem feito, é claro): frescor, leveza... um jeito inteligente de consumir pescados crus, ou quase crus. E, acima de tudo, executável em qualquer lugar, desde que com a matéria-prima adequada.

Continuando: culinária nórdica, digamos, é modismo? Como filosofia de cozinha, não, pois tem influenciado muitos chefs, em temas como sazonalidade, cultura local, orgulho dos produtos nativos. Por outro lado, quem tem acesso a broto de pinheiro, língua de cervo, ovas de peixe-voador, ervas e cogumelos da floresta boreal, tudo regado não a azeite, mas a óleo de colza? É um repertório difícil de se difundir em outras terras.

Moda que vira parte da cultura, portanto, precisa ser consumida, absorvida, adotada. Mas, principalmente, replicada. E as modinhas? Bom, que sirvam ao menos como diversão. Deixemos passar.