30/11/2017

Grandes sacadas, simples ideias | Luiz Américo Camargo

Destemperados

Foto: Omar Freitas/Agência RBS

Quem é mais criativo? O projetista de aeronaves ou aquele que idealizou o abridor de garrafas? É possível medir objetivamente a qualidade de uma invenção? Quem sabe calculando o alcance da ideia, o impacto sobre as pessoas... Não sei dizer. Mas creio que, se fosse mais difundida a noção de que o simples também pode ser transformador, teríamos mais gente pensando e executando além do óbvio, sem precisar recorrer ao “mirabolante”.

E na cozinha? Quando o assunto é criatividade, é comum fazer associações a Pierre Gagnaire, Ferran Adrià, Massimo Bottura, supondo fumaças, esferas, formas inéditas. Sim, chefs como esses são referência no tema – mas não apenas eles. Pois, tal qual o garfo ou o referido abridor, iniciativas brilhantes podem ser singelas. Exemplos? O fato de Gualtiero Marchesi, um ícone italiano, ter feito uma revolução nos anos 1970 defendendo que massas e risotos deveriam ser comidos al dente, e não cozidos demais.

Ou, então, quando o cozinheiro do lendário Lord Sandwich bolou um jeito de seu patrão – jogador inveterado, que não queria largar as cartas nem para jantar – poder se alimentar com uma só mão, sem talheres, unindo pão, molhos, carnes... A grande sacada, portanto, pode estar no uso original de um ingrediente. Pode ser um jeito novo de executar uma velha receita. Uma revisão de gestos, de cocções.

Outro exemplo? Falemos de pizza. Em nome de sua “versatilidade” já se criaram intervenções inteligentes, mas também genuínas bizarrices. Por outro lado, vi no New York Times uma receita trivial que, sem pretensões, promove o encontro da cultura italiana com a americana. É a pizza para o café da manhã, que junta o costume do pãozinho matinal com o bacon & eggs da tradição anglo-saxônica. Faz-se a massa, assa-se o disco, enquanto os ovos e o bacon, preparados à parte, são incorporados à cobertura apenas na finalização, dentro do forno.

Por essas e outras, talvez consigamos extrair um outro critério: se a criatividade é livre e pode refletir ideias simples, melhor ainda se o bom gosto for o limite.

lamerico.camargo@gmail.com
*Crítico gastronômico e autor do livro Pão Nosso