16/11/2017

Colocando pimenta no debate... | Luiz Américo Camargo

Destemperados

Foto: Reprodução

O tema me ocorreu num recente e ótimo almoço no Universal, em Brasília. Mara Alcamin, a chef, está dando cada vez mais ênfase nos ingredientes do bioma local, o Cerrado. De uns tempos para cá, por exemplo, ela vem trabalhando apenas com pimentas regionais. Relatou que, para petiscos e tira-gostos, costumava deixar vidrinhos daquela marca americana famosa à disposição dos clientes. Até que pensou: “com tamanha gama de opções no Brasil, não é um contrasenso ter de recorrer a um produto importado?”. Hoje, as pimentas do Universal são todas feitas na casa. E os comensais apreciam.

Mais do que uma questão de disputa de mercados ou de identidade nacional, creio que a história traz alguns pontos para reflexão. Primeiro deles: o tal fabricante americano, antes de tudo, foi competente na formatação de seu produto, e hábil na difusão de sua marca, que virou referência para este tipo de molho. É preciso reconhecer suas virtudes. E imaginar que, com notável diversidade, muitas nuances de aroma, sabor e potência, nossas pimentas podem, sem dúvida, oferecer incríveis alternativas gastronômicas. Inclusive concorrendo naquele território que parece ser o maior trunfo da tal grife made in USA: a de garantir um “ardor suave”, capaz de agradar uma ampla freguesia.

O segundo ponto: quantos outros produtos feitos por aqui podem ter potencial semelhante? Não por mera xenofobia, para combater o “domínio imperialista”. Mas pela própria capacidade de, se bem trabalhados, conquistarem espaços em nosso mercado. Podemos estender o raciocínio para outros condimentos, para bebidas, para artigos artesanais. É preciso que cozinheiros, produtores e comerciantes encampem a causa. E que os consumidores, cativados pela qualidade, abracem a ideia. E, acima de tudo, é essencial aprender com as grandes marcas, com os produtos de sucesso. Para fazer do nosso jeito e com uma originalidade à toda prova.

*Crítico gastronômico e autor do livro Pão Nosso
lamerico.camargo@gmail.com