05/10/2017

Artes Culinárias | Luiz Américo Camargo

Destemperados

Foto: Félix Zucco

Costumeiramente, sempre houve uma espécie de incompatibilidade entre frequentar museus e afins e comer bem (no
mesmo local, entenda-se). O velho papo: o acervo é incrível, o almoço é sofrível. Por quê? As justificativas iam das limitações técnicas das cozinhas, que acabavam tendo de apelar aos “pré-prontos”, a um pretenso “perfil turístico” do público, sem maiores exigências por qualidade. É um falso dogma que vem mudando faz algum tempo, mais notadamente no Exterior. Mas que tem ganhado força também aqui, em várias capitais.

Escrevo sobre o tema porque aqui em São Paulo, num intervalo de poucas semanas, surgiram três ótimos endereços que só confirmam essa nova perspectiva. Primeiro, a Japan House, na Av. Paulista, com sua arquitetura elegante e sua programação que une arte e cultura nipônicas, muito bem amparada pelo Junji, um bem montado restaurante com pratos
quentes e frios, sob a supervisão do chef Jun Sakamoto.

Logo em seguida, veio o Vista Café, do chef Marcelo Corrêa Bastos, do Jiquitaia, com sua saborosa culinária de inspiração brasileira, preços amigáveis e um arejado salão no mezanino do Museu de Arte Contemporânea (e, como o nome sugere, uma bela vista para o Parque Ibirapuera). Mais recentemente, foi a vez do Balaio, assinado por Rodrigo Oliveira, do Mocotó, com receitas brasileiras simples e criativas, não só de matriz nordestina, instalado no novíssimo Instituto Moreira Salles, também na Paulista. Nada é um sopro de renovação no cenário.

Antigamente, dizia-se que espaços culturais não podiam acolher cozinhas muito parrudas, já que fogo, fumaça e outros fatores poderiam oferecer risco a arquivos e obras. Não acontece mais: hoje, a tecnologia permite um domínio muito melhor dos processos culinários, com equipamentos compactos e ambiente muito mais controlado. Interesse dos visitantes? As mesas sempre cheias desses lugares mostram que a turma quer passear e se informar, sim, mas fazendo excelentes refeições. Que vire um caminho a ser seguido em todo o país, sepultando de vez aquela antiquada ideia de “comida de museu”.